DISCOS
Kubik
Metamorphosia
· 16 Set 2005 · 08:00 ·
Kubik
Metamorphosia
2005
Zounds


Sítios oficiais:
- Kubik
- Zounds
Kubik
Metamorphosia
2005
Zounds


Sítios oficiais:
- Kubik
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Kubik é Victor Afonso, tem 36 anos e usa óculos de massa. Faz música electrónica, até aqui tudo bem, mas de repente percebemos que não tem um curso de arquitectura. Para além disso, não é oriundo de nenhuma das maiores cidades portuguesas, nem se fixou em nenhuma delas. Continua a basear-se na sua Guarda natal, apesar de de vez em quando aparecer por aí (menos do que gostaríamos), a dar concertos. Em 2004 abriu o concerto de Fantômas na Aula Magna e tem em Mike Patton um fã incondicional. Como se isto não fosse suficiente, tem um curriculum musical de fazer inveja a muita gente. E faz música electrónica e continua na Guarda.

Metamorphosia é o seu segundo álbum como Kubik, depois de Oblique Musique, de 2001. Está dividido em duas partes, com introduções no princípio, meio e fim. Não há cá interlúdios nem outros. A primeira introdução é como um grito de guerra, com um exército a preparar-se, e até tem direito a gritos estranhos de guerreiros. Logo depois há um jogo com saxofone, guitarra e baixo, uma melodia que vai sendo abafada por samples e vozes estranhas. Uma mistura de instrumentos orgânicos, samples e electrónica. É isto que é Metamorphosia.

Victor Afonso tem uma licenciatura em educação musical, mas não quis enveredar pelo caminho da música erudita, do jazz ou do pop/rock. Sendo basicamente um fã de música, alguém que gosta realmente de conhecer todos os tipos de música possíveis e imagináveis, quis tentar explorar ao máximo tudo o que lhe passasse pela cabeça, sem quaisquer preconceitos. E é isso que transparece em Metamorphosia. Como não tem ideias nem pretensões de pertencer a este ou aquele género musical, Victor Afonso pode fazer o que lhe apetece. Também não é como se existisse uma extensa comunidade de músicos experimentais na Guarda que possa ostracizá-lo por não ouvir nem fazer apenas música de vanguarda.

Em Metamorphosia junta a experimentação a uma faceta lúdica. Tanto pode estar num minuto a fazer uma aproximação ao reggae sobre vampiros com Francisco Silva (aka Old Jerusalem) em "I'm a Vampire, I'm Disgust", com uma guitarra acústica solante e outra eléctrica, uma batida simples, pormenores de samples a aparecer por todo o lado, com direito a uma flauta de repente, como pode no minuto a seguir estar na introdução para a segunda parte do disco, com o tema-título de Hitchcock Apresenta e a sua voz a cantar "Hitchcock is not Groucho Marx", depois de um presidente dos EUA a dizer "God bless you and god bless América" e samples orquestrais. Tudo fica mais rápido e a sua voz usa um sotaque que parece Peter Sellers a falar em russo em Dr. Strangelove ou coisa que o valha. Este é um momento de viragem no disco, onde depois de uma primeira parte mais divertida e optimista tudo fica um pouco mais negro e ambiental, onde remisturas dos Bypass dão lugar a um tema que começa com cordas, muitas cordas e depois se transforma em algo que não ficaria mal, primeiro, numa qualquer banda sonora de Angelo Badalamenti para David Lynch e, depois, em Autobahn dos Kraftwerk. A última faixa antes da última introdução que fecha o disco tem Adolfo Luxúria Canibal - dos bracarenses Mão Morta e Mécanosphère - a fazer o seu truque do costume, sem surpresas, mas tendo na música de Kubik um óptimo background para as suas palavras.

"Landscape Song", a última introdução, fecha o disco com samples de desenhos animados e mais uma vez com um presidente dos EUA a dizer "God bless you and god bless America", como a agradecer-nos por termos ouvido o disco até ao fim. Depois há um sample duma banda de metal (até com grunhidos), uns foguetes no ar, um cão a arfar, uns sinos duma igreja, uns pássaros. Foi uma viagem do caraças para chegar até aqui. Não conseguimos, durante o disco, fazer a distinção entre o que é tocado e o que é samplado, ou donde vêm os samples, sabemos que há Meredith Monk ou Shellac (ou não usasse Victor Afonso óculos) por ali, mas não sabemos onde. Pode estar no princípio, no meio, no fim, entre tudo, pode ser um dos elementos estranhos que aqui e ali aparecem. Porque Metamorphosia é um disco cheio de pormenores, a cada audição reparamos nas camadas e camadas de pequenos sons que Victor Afonso se divertiu a criar e a pôr na sua música. E é só mais um tipo de óculos de massa, que é da Guarda e faz música electrónica. Na parte de trás do disco aparece uma pergunta que John Cage um dia fez: "O que é que é mais musical? Um camião a passar por uma fábrica ou um camião a passar por uma escola de música?" A resposta é: Metamorphosia.
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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