Tricky
Mixed Race
· 01 Out 2010 � 11:09 ·
Tricky
Mixed Race
2010
Domino


Sítios oficiais:
- Tricky
- Domino
Demasiado multiculturalismo em torno de algo tão simples: o poder de uma voz que nos revolve as entranhas.
Nos anais da música pop, folheando o capítulo referente à década de 1990, em busca do aclamado trip-hop de Bristol, deparamo-nos com duas grandes referências: Massive Attack e Portishead. Quanto a Tricky, aparece remetido a figura secundária, em parágrafo posterior de contextualização. Mas porquê, dada a fulcral intervenção que protagonizou na génese de tão viciante sonoridade urbano-depressiva, mescla de tradição e modernidade, desde as raízes mais profundas da música negra até às texturas geométricas emanadas pelos sintetizadores? Não era ele, afinal, um dos membros originais do colectivo Wild Bunch, que viria a metamorfosear-se nos Massive Attack, fundadores oficiais deste género através do seminal Blue Lines (1992), em cuja concepção, aliás, participou enquanto vocalista?

Pura gestão de expectativas. Ao passo que os Portishead, por exemplo, como que cristalizaram o hype ao longo dos 11 anos que demoraram a lançar um terceiro álbum, somente em meados de 2008, Tricky, por seu lado, acaba de lançar o 11º disco (!) desde a obra-prima Maxinquaye (1995). Já os Massive Attack não foram tão calculistas quantos os primeiros nem tão desregrados quanto o segundo, embora não tenham produzido nada de relevante desde Mezzanine (1998) e pareçam caminhar, reduzidos a dois elementos (escreva-se de passagem que Tricky faz tanta falta aos Massive Attack quanto Martina Topley-Bird relativamente a Tricky) , no mesmo sentido de vulgarização e/ou descaracterização.

Não se imagine, porém, que Tricky tenha pecado pelo eterno retorno ao mesmo local de partida. Muito pelo contrário, a regra tem sido uma espécie de obsessiva anti-repetição, carrossel de géneros e fórmulas onde demasiadas vezes perdemos o rasto à voz hipnótica, soturna, inimitável, de um dos mais pródigos filhos da cidade industrial de Bristol. No novíssimo álbum, não por acaso, abrem-se as hostilidades com uma inspirada faixa bluesy que faz temer o melhor, ao que se segue pastilha elástica pop a fingir que é ska, mais um lânguido apontamento bluesy-jazzístico em dueto a lembrar os velhos tempos com Martina, outro pastiche de gosto duvidoso, a incursão pelo Médio-Oriente (!), ainda "música de dança" (no sentido mais cheesy do termo), enfim, uma panóplia de equívocos e experimentações sem critério que resultam num todo incoerente, tal como a maioria dos discos anteriores, no limiar da mediocridade. Se ao menos Tricky conseguisse focar-se naquilo que tem de melhor, assumindo o risco de se repetir...
Gustavo Sampaio
gsampaio@hotmail.com
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