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2010
Wierd Records

Sítios oficiais:
Automelodi
Wierd Records

O disco mais gay do ano corre sérios riscos de ser também um dos piores.


Quantas voltas deve dar um hamster pop para ser considerado um animal kitsch? O kitsch é uma marca de nascença ou uma qualidade adquirida através da saturação? A rotação absurda que alguns singles sofrem na diabólica Mega FM acelera o processo kitsch de cada um? Todas estas perguntas amontoam-se à porta do debute homónimo dos Automelodi, porque no interior reside uma aberração tão intrigante como intragável - no fundo, um conjunto de canções que só precisa de ser repisado vezes sem conta para ser tomado como kitsch.

Para mais, o próprio contexto em redor dos canadianos Automelodi denuncia algum ridículo: a Wierd Records forma o seu próprio nicho em Brooklyn, enquanto acumula as funções de label e pulmão para as noites de um club-irmão. Entretanto surge a inevitável mente brilhante que abusa do título cold wave na definição de todas estas bandas agarradas aos mais tristes sintetizadores da colheita 80-83. Não sabemos até que ponto esta história será irónica. O certo é que alguma imprensa tem procurado validar toda esta merda com as habituais comparações apontadas a Manchester e à Factory, mas o aspecto sinistro dos penteados à Flock of Seagulls é suficiente para que ninguém leve a sério tão pobrezinha tentativa de recuperar um fio estilístico demasiado desgastado.

O facto do vocalista Xavier Paradis (ou Arnaud Lazlaud) cantar em francês também não ajuda. Uma coisa é um rapaz elegante a esfregar os joelhos num palco encerado, enquanto canta padam padam padam entre outras palavras, e isso diverte duas pessoas ao almoço. Outra coisa é um disco doentiamente amestrado pelos piores hábitos do retro e ainda por cima rendido à conjugação fácil e pateta de termos como “Kafka” ou “Stevie Nicks” com aquela pronúncia francesa tão caricatural como o homem de boina e uma camisa às riscas.

O ensaio podia sempre ser pior (ai senhor), contudo a salvação de Automelodi assenta em duas músicas (“Schéma Corporel” e “S'rait bon d's'revoir”) minimamente capazes de produzir o calor e o impulso essenciais para que alguém se lance finalmente sobre os lábios e o bigode que andou a galar toda a noite numa reunião de Bears. Só lhe falta ser melhor, muito muito melhor.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com


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