DiscoAndré Matos Quare

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2010
Inner Circle Music

Sítios oficiais:
André Matos
Inner Circle Music

De viajar entre Lisboa e Nova Iorque esta guitarra amadureceu. Mas continua a procurar outros mundos.


A capa é péssima, sim, mas tentemos abstrair-nos desse pormenor. Chama-se Quare e é o terceiro disco de André Matos, jovem guitarrista em fase ascendente. Radicado desde 2008 em NYC, Matos edita este mais recente trabalho na editora de Greg Osby, a Inner Circle Music. Talvez este sinal seja significativo de uma notória evolução, a caminho da maturidade. Matos estreou-se com Pequenos Mundos (Fresh Sound New Talent, 2005), primeiro cartão de visita; veio depois Rosa-Shock (Tone of a Pitch, 2008), a mostrar a procura de uma linguagem, disco a fervilhar ideias. E chega agora um trabalho mais amadurecido, mas a pesquisa continua.

O guitarrista assenta a sua linguagem na tradição jazzística, no dedilhar reverente dos mestres, na abordagem pouco radical, mas sóbria e segura. Neste disco faz-se acompanhar por um conjunto de músicos de dimensão internacional: Leo Genovese (piano), Thomas Morgan (contrabaixo), Ted Poor (bateria) e Noah Preminger (saxofone tenor). E, não poderia faltar, Sara Serpa, que acrescenta o seu característico modo de cantar sem palavras em três faixas do disco. Esta equipa de óptimos instrumentistas acrescenta detalhes elegantes a uma música já de si bem desenhada pelo guitarrista.

Bem estruturada, a música de Quare é uma afirmação de solidez do guitarrista, mas este continua a querer explorar diferentes caminhos, diferentes possibilidades, diferentes ambientes. A guitarra de Matos mostra-se sempre afirmativa, quer a abusar dos efeitos (onde o melhor exemplo é “Hope and Joy”), quer no balanço das marés calmas (“Vigia”, por exemplo). E há ainda que ter em atenção os vários interlúdios, onde uma guitarra acústica perdida saboreia o prazer conflituoso das dissonâncias.

Quare é ambicioso, até pela dimensão: tem uma hora de duração, dezasseis temas no total. A segurança com que Matos desenvolve cada tema é notória e há que reconhecer o trabalho feito ao nível da composição – dos dezasseis do disco, apenas um tema é alheio. E esse tema alheio é também um dos mais marcantes. Trata-se de uma arrepiante versão do “Canto do Tejo”, de Carlos Paredes, que Matos consegue revitalizar inteligentemente pela simplicidade. Secando a melodia, refaz dali um belíssimo tema, arrancando uma inigualável expressividade emocional. Temos guitarrista.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com


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