DiscoBlack Dice Repo

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2009
Paw Tracks / Flur

Sítios oficiais:
Black Dice
Paw Tracks
Flur

Turbilhão de ideias resulta num exercício cansativo e pouco frutífero. Um tiro ao lado no percurso dos nova-iorquinos.


Os Black Dice são uma eterna caixinha de surpresas. Uma caixinha, mas daquelas verdadeiramente avariadas, imprevisíveis, em constante auto-questionamento. Só isso explica que em 2002 tenham feito um soberbo Beaches and Canyons, um daqueles discos que sintetizam uma década e uma atitude criativa (junte-se-lhe Here Comes The Indian dos Animal Collective e KA dos Excepter e temos a tríade de luxo da criação primitivo-futurista do século corrente) e, cinco anos depois, inventem um Load Blown, em que a estranheza era investida na invenção de uma nova forma de música de dança.

Com estes pergaminhos, Repo é uma desilusão. Disco de síntese, tenta cruzar o caleidoscópio sonoro dos Black Dice pós-Beaches and Canyons com a abordagem mais pop e directa de Load Blown, mas a prática não soa tão bem como a teoria. Não é um disco falhado, mas falta-lhe o encanto da maioria dos discos dos Black Dice (a excepção é Broken Ear Record, ainda assim uns furos acima de Repo).

Em Repo, cada tema vem sobrecarregado de ideias, como se a sua existência consistisse no ordenamento do caos. Há um lado lúdico nessa constante tensão entre ordem e chinfrim que, por vezes, resulta. Mesmo que não estejam ao nível do passado do grupo, há alguns bons momentos. Exemplos: "Glazin'", entre o tropical e o alienígena, talvez o mais próximo que os Black Dice estiveram de uma canção; "Idiots Pasture", que poderia pertencer a um disco da Anticon, graças ao cruzamento certeiro de beats simples com vozes etéreas em loop; e "Vegetable", que traz uma guitarra acústica para a contenda, lembrando uns Animal Collective de Sung Tongs sem os cânticos grupais (e, sobretudo, com menos 95% da inspiração).

Repo sofre de short attention span, não se conseguindo fixar, nem filtrar o jorrar criativo do trio. Ouça-se "Earning Plus Interests", mistela inconsequente de batucada digital, vozes encharcadas em efeitos e acontecimentos sonoros que parecem retirados do departamento de sonoplastia de uma produtora de desenhos animados, ou "La Cucaracha", que enfia o que parece ser a melodia do Hino à Alegria da 9ª Sinfonia de Beethoven entre percussões desordeiras - os Black Dice perderam a fibra rítmica de Load Blown. "Lazy TV" faz jus ao nome: é um jogo insosso e ... preguiçoso de samples (possivelmente retirados de genéricos televisivos). Noutros momentos (em demasiados momentos), há apenas exercícios de ruído e manipulação de sons, sem intuito que não esse mesmo - sem comunicação, portanto, sem prazer. Dos Black Dice espera-se muito mais do que isto.

Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com


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